Uma discussão sobre a alimentação do Betta
splendens
A alimentação do peixe betta tem sido objeto de grande discussão
entre os criadores. Todos reconhecem que é um dos fatores mais importantes,
que deve ser observado, quando se deseja produzir animais de qualidade.
Originalmente o peixe betta se alimenta, na maioria das vezes de
presas vivas, e assim pode ser considerado no grupo dos carnívoros,
possuindo, portanto, o trato digestivo curto significando que possui
uma digestão rápida.
É importante que saibamos que a nutrição ocorre no momento em que
o bolo alimentar está sendo oferecido à mucosa intestinal. Os nutrientes
são levados ao sangue através de pequeníssimos filamentos chamados
microvilosidades. O produto resultante da digestão (lipídios, proteínas,
carboidratos, etc.) passa através de um fino epitélio e alcança
o sangue. Por esses micro-canais os nutrientes são levados aos tecidos
do corpo, nos quais se difundem para o líquido intersticial que
banha as células.
Estudos recentes revelaram que a maioria dos peixes ornamentais
não consegue metabolizar mais do que 36% de proteínas, assim uma
alimentação com altos valores protéicos exigirá, também, a geração
de um grande valor de energia, bem como uma grande produção de enzimas
digestória.
Como vimos, o betta tem um período de digestão muito pequeno, assim,
se ele for alimentado excessivamente, o excesso que o animal não
metaboliza será excretado, quase que in natura, levando, inclusive,
parte das enzimas digestórias produzidas no processo. Este produto
em contato com a água estará originando os famosos "compostos nitrogenados"
(nitrito -> nitrato -> e amônia) prejudiciais à saúde dos
bettas e inibidores do seu crescimento.
A título de curiosidade, vale relatar que estudos realizados, em
laboratório (laboratório de Biologia Unisuam 2006), evidenciaram
anomalias morfológicas no trato gastro-intestinal de várias espécies
de peixes ornamentais - inclusive do betta - alimentados com ração
granulada, produzida, originalmente, para outras espécies de peixes
(carpas, truta, tilápia etc).
Convém ressaltar, também, que o betta é um caçador nato. Se observarmos
o alevino de betta se alimentando de um náuplio de artêmia salina;
verifica-se que ele persegue o náuplio, prepara o ataque,
encolhendo o corpo e recolhendo a cauda e dispara o bote. Com o
passar do tempo o betta de cativeiro perde esta característica de
caçador porque os alimentos que oferecemos, geralmente na forma
inanimada, não necessitam serem caçados. Mesmo assim muitos bettas
ainda preservam o procedimento característico da espécie de dar
o bote no alimento.
Então como seria a melhor maneira de alimentarmos nossos bettas?
No meu entendimento não existe uma regra única. Cada criador tem
a sua maneira de alimentar os seus peixes e acha que é a melhor.
Alguns guardam seus menus como segredos "debaixo de sete chaves".
Como citamos no início, o betta originalmente se alimenta de presas
vivas, por isso - biologicamente - entendo que a melhor forma de
alimentarmos este animal seria com alimentos que se aproximassem
o máximo daqueles que ele encontraria na natureza, assim, o alimento
vivo deve fazer parte imprescindível da sua dieta.
Alimentos gordurosos devem ser evitados, pois, geralmente, levam
os bettas a um estado de obesidade podendo inclusive levá-lo à letargia.
A obesidade no macho dificulta o acasalamento e nas fêmeas diminui
e até inibi a procriação.
Então que tipo de alimento devemos oferecer aos nossos bettas?
Como não conhecemos as necessidades nutricionais do peixe betta,
pois elas são específicas para cada espécie, para cada linhagem
e até para cada indivíduo e como não conhecemos também os valores
nutricionais dos alimentos que utilizamos, sugere-se, então, que
o arraçoamento seja bastante diversificado, pois, assim teremos
mais chance de acertar.
A seguir relaciono vários tipos de alimentos que poderão ser utilizados
diariamente, ressaltando que neste item não se deve economizar sendo
importante comprar rações ou utilizar produtos de ótima qualidade.
- Rações industrializadas: No mercado pet existe uma gama
de rações específicas para os bettas. Compre as melhores, diversifique
as marcas e ministre-as alternadamente.
- Alimentos vivos: artêmia salina adulta viva, larvas de
mosquitos (vivas ou congeladas), tubifex (de preferência o liofilizado),
minhocas vermelhas da Califórnia (cortadas em pequenos pedaços
ou seus filhotes vivos com até 1,5 cm de comprimento), daphnia,
blood worms, enquitréias e microvermes.
- Rações caseiras: raspas de camarão (raspados sem casca),
patês caseiros (de fígado de boi, coração de boi, etc.)
E a maioria dos criadores como estão alimentando os seus bettas?
Para melhor ilustrar este artigo consultei vários criadores, todos
muito conceituados pela performance de seus peixes e a seguir descrevo
o padrão de alimentação utilizado por eles, concluindo que é possível
atingir bons resultados utilizando caminhos distintos:
- Paulo Freitas
- Alevinos: Alimento três vezes ao dia, revezando com
microvermes e náuplios de artêmia salina. Em caso de falha
na produção de náuplios utilizo gema de ovo cozida pulverizada,
diluída em água e gotejada sobre os alevinos.
- Juvenis: Aão alimentados duas vezes ao dia. A partir
de vinte dias começo a ministrar artêmia salina congelada
e vermes de grindal, gradativamente. Uso ração pulverizada
a partir dos trinta dias, com o acréscimo de patês, daphnias,
enquitréias, raspas de coração de boi congelado.
- Adultos: São alimentados uma ou duas vezes por dia,
da seguinte forma: ração seca, patê, artêmia congelada ou
blood worm e logo após coloco daphnias. As daphnias permanecem
vivas por bastante tempo e os peixes as comem durante todo
o dia. Quando consigo larvas de mosquito, dou preferência
a elas.
- Francisco Marraschin:
- Alevinos: Alimento uma ou duas vezes por dia, uma
dieta de náuplios de artêmia e microvermes, geralmente
náuplios de manhã e microvermes à tarde. Coloco uma
grande quantidade porque assim os alevinos comem o dia inteiro.
- Juvenis: alimentação idêntica a dos alevinos sendo
que a partir de um mês complemento com ração esfarelada de
boa qualidade. Ministro os náuplios até três ou quatro
meses.
- Adultos: Alimento no máximo duas vezes ao dia. Ministro
ração granulada , artêmia congelada e blood worms esporadicamente.
A base da alimentação é a ração granulada.
- Vitor Chevitarese:
- Alevinos: alimento duas vezes ao dia.
- Juvenis: alimento duas vezes ao dia.
- Adultos: alimento duas vezes ao dia, com um dia de
jejum por semana.
- João Maurício:
- Alevinos: Nos três primeiros dias de vida alimento
com infusórios e depois náuplios de artêmia salina
duas vezes ao dia. Havia suprimido os infusórios como alimentação
inicial dos alevinos e agora estou voltando com eles e verifiquei
que os alevinos têm mais facilidade em comer a artêmia
salina e o resultado está sendo melhor.
- Juvenis: Além do náuplio de artêmia
vou adicionando ração em pó bem fina até que possa suprimir
os náuplios totalmente. Posteriormente introduzo blood
worms, patês e ração granulada.
- Adultos: Alimento duas vezes ao dia alternando ração,
patê e blood worms. Na ração acrescento um complexo vitamínico
chamado Aminomix.
- Marcos Canavieira - criatório comercial, produção de
8.000 a 10.000 unidades/mês:
- Alevinos: Alimento com náuplios de artêmia
salina três vezes ao dia.
- Juvenis: Forneço daphnias e larvas de mosquito à
vontade. Os peixes comem o dia inteiro. Posteriormente vou
substituindo pela ração granulada, de acordo com a aceitação
até tirar totalmente o alimento vivo.
- Adultos: alimento três vezes por semana com ração
granulada.
- Idésio Almeida - criatório comercial 2.000/3000
unidades/mês:
- Alevinos: Nos três primeiros dias de vida deixo
os alevinos na bacia onde nasceram e não dou nenhum alimento.
A partir do quarto dia alimento com infusórios. No décimo
dia coloco os peixes no tanque com infusórios e apenas dez
centímetros de lâmina d'água e no décimo segundo dia coloco
daphnias, que se reproduzem no tanque junto com os alevinos.
Quando os alevinos comerem todas as daphnias passo-os para
outro tanque previamente adubado onde eles continuarão crescendo
e comendo daphnias e vou aumentando gradativamente o volume
d'água. Aos vinte e cinco dias acrescento ração em pó bem
fina até eles irem para os vidros individuais.
- Juvenis: Quando vão para o vidro individual ofereço
ração granulada uma vez por dia.
- Adultos: Ministro ração granulada - somente - a cada
dois dias.
- Wilson Vianna:
- Alevinos: Os vinte primeiros dias alimento três vezes
ao dia, revezando náuplios de artêmia salina
e microvermes. Com 20 dias os alevinos vão para o tanque,
previamente adubado e com grande população de daphnias. Os
peixes comem daphnias direto até irem para os vidros.
- Juvenis: alimento duas vezes ao dia revezando: daphnias,
ração granulada e larvas de mosquitos.
- Adultos: alimento duas vezes ao dia revezando: daphnias,
ração granulada e larvas de mosquitos.
Embora a literatura especializada sugira que os alevinos sejam
alimentados entre cinco a sete vezes ao dia, os juvenis quatro a
cinco vezes por dia e os adultos três vezes ao dia, como vimos,
cada um dos criadores citados apresentou uma metodologia distinta
para alimentar os seus peixes. Esses conhecimentos foram adquiridos
através da observação detalhada, experimentações e muitas tentativas,
realizadas no decorrer de muitos anos.
Por oportuno, convém ressaltar, também, que além da alimentação
apropriada, parâmetros como a qualidade da água, a quantidade e
a qualidade de luz, são importantíssimos para a obtenção de animais
de boa qualidade. Esses parâmetros serão objeto de discussão no
nosso próximo artigo.
Wilson Vianna
wovianna@oi.com.br
Graduado em Administração de Empresas pela
UNISUAM/RJ. Aposentado pela Petrobrás desde 2004. Graduado em Ciencias
Biológicas pela UNISUAM/RJ, Pós-Graduando em Biologia Marinha pela
UNISUAM /RJ, Possui trabalhos cientícos publicados no CNPQ - Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, titular da
Piscicultura Vianna (Magé/RJ), relações públicas e articulista
da revista Mania de Bicho (RJ), Gestor do Centro de Estudos de Aquariofilia
- CEA, membro da equipe de pesquisa Científica "Aquisuam". No momento
estuda o parasito Camallanus cotti fujita, que afeta o plantel
nacional de peixes ornamentais.
Publicação autorizada: 03/04/2009
Artigo publicado originalmente na revista Mania de Bicho
Fontes:
- AUGUSTUS. Uma Revisão Sobre o Papel dos Carboidratos e da
Proteína no metabolismos de Peixes com Hábito Carnívoro e Onívoro,
Rio de Janeiro, UNISUAM, vol 9, jan/jun 2004, 72 p.
- CARVENIA, D. Alimentos e Alimentación de Peces de Acuário,
Associação Uruguaia de Acuaristas, 1989. 90 p.
- Journal of Aquaculture Tropical, jan/1989.
- Progressive Fish-Culturist, dez/1974.
- SEIXAS FILHO, Dr. .J. T. Revista de Zoologia, novembro/dezembro
de 2001
- VIDAL JÚNIOR, M. V. Produção de Peixes Ornamentais,
2003
Última
Atualização: 22.07.10 13:05
|