Procriando Betta splendens
Uma das primeiras dificuldades que criadores de Betta splendens
se deparam, é com a reprodução de seus peixes
em cativeiro. Não por que esta espécie seja difícil
de procriar nestas condições, exista algum segredo,
mas sim pela desinformação e despreparo.
O criador não precisa se preocupar em ensinar o peixe a
se reproduzir, isto é instintivo e natural. Ele precisa se
preocupar em criar as condições ideais para que isto
aconteça. Se acercar de cuidados e infra-estrutura.
A primeira providência e talvez a mais crítica de
todas é começar a cultivar micro-organismos vivos,
que servirão de alimentos para as larvas de Bettas,
logo após o nascimento. Sem eles, não devem se atrever
a começar o acasalamento, sob pena de ver a ninhada morrer,
um peixe após o outro, diante de seus olhos, completamente
impotentes.
Hoje você encontra na web tutoriais passo-a-passo e inóculos
para cultivar micro-organismos como: vermes-do-vinagre,
microvermes, vermes-de-grindall,
entre vários outros. Também encontra
tutoriais para eclodir cistos de artemias
franciscanas (salinas), essenciais para as larvas de Bettas.
Todos micro-organismos de fácil manejo, que não ocupam
muito espaço e acabam se tornando uma fonte de prazer, da
mesma forma que o aquarismo gera.

A segunda providência é conseguir uma caixa plástica
pequena, com tampa, com aproximadamente: 30 cm (C) x 20 cm (L) x
10 cm (A) ou um aquário de aproximadamente 20 litros (com
tampa). Este será o ambiente para procriação
e desenvolvimento das larvas de Bettas até
90 dias de vida, aproximadamente.
Esta caixa (ou aquário) deve ficar instalada num ambiente
tranqüilo, onde não haja grande movimentação
de pessoas e/ou animais domésticos que possam assustar os
peixes e por a perder o acasalamento ou até mesmo a ninhada.
Ao menor sinal de perigo, os pais comerão os ovos ou os filhotes
e abandonarão o processo (acasalamento ou cuidados com o
ninho).
Coloque nesta caixa (ou aquário), uma coluna de água
variando entre 5 e 10 cm de altura, nunca mais do que isto. Se os
ovos cairem ao fundo, numa profundidade de água maior, podem
inviabilizar o desenvolvimento das larvas. Esta água deve
ser isenta de cloro e metais pesados, pH variando entre 6,8 e 7,4
(ideal em torno de 7,0) e temperatura variando entre 24 e 30 °C
(ideal em torno de 27 °C). Providencie um apoio para o ninho-bolha
(não obrigatório), que pode ser um pedaço de
folha de amendoeira, um pedaço
de plástico ou até mesmo um copinho de café
descartável, cortado ao meio. Ele pode ser aderido à
borda da caixa (ou aquário), com uma fita adesiva (fita crepe,
por exemplo). Minha preferência pessoal pela folha
de amendoeira é em função de sua propriedade
fungicida/bactericida natural (isto vai deixar a água com
cor de chá em poucas horas, não se preocupe com isto).
Se você escolher um caminho diferente, adicione fungicida
industrializado na água, na dosagem recomendada pelo fabricante.
Isto fará com que mais ovos vinguem, que não sejam
atacados por fungos. Também adicione 1 g de sal-grosso, para
cada litro de água.
Providencie abrigos para a fêmea se esconder do macho, caso
ele resolva ficar violento demais e sem paciência de esperar
a fêmea estar totalmente pronta para o acasalamento. Pode
ser: plantas naturais (musgo de java, samambaia d'água, etc
- compatíveis com o pH da sua água), seixos (pedras
de fundo de rio, arredondadas - sem arestas cortantes) ou tubos
de PVC (espalhe 2 ou 3 "cotovelos" pelo fundo). É
raro, mas estes abrigos podem servir até ao macho em alguns
casos, onde a fêmea possui temperamento indócil. Isto
vai reduzir os riscos de perder matrizes por conta acasalamentos
tempestuosos.
Você vai precisar de um cilindro transparente e incolor para
conter a fêmea durante 4 dias aproximadamente, dentro desta
caixa (ou aquário), longe do alcance do macho, mas em seu
campo visual a todo momento, para que possa acontecer a corte e
para que ele fique estimulado a construir o ninho-bolha. Você
pode usar um pet de água mineral transparente e incolor,
cortando seu fundo e parte afunilada da boca, produzindo uma peça
cilíndrica. Quando chegar o momento adequado, você
vai poder levantar levemente este pet, liberando a fêmea para
o acasalamento, sem mexer demais com a água, para não
desmanchar o ninho-bolha.

Pronto! Agora você criou a infra-estrutura e o ambiente adequado
para que o acasalamento ocorra e a ninhada vinge.
Vamos para a fase do acasalamento dos Bettas... Selecione
exemplar macho e fêmea saudáveis, de preferência
com linhagens definidas e estabilizadas, para obter filhotes compatíveis
com a sua linha de trabalho genético. Mas se você é
um principiante e quer apenas aprender este manejo, concentre-se
apenas em escolher os peixes que mais lhe agradam esteticamente,
que estejam em pleno vigor físico e bem alimentados. Aqui
vai uma dica importante: escolha uma fêmea ligeiramente menor
que o macho, para facilitar a cópula do casal.
Se você é uma pessoa ocupada, dispõe de pouco
tempo, programe a soltura do casal na caixa de cria e desenvolvimento
das larvas de Bettas (ou aquário), para dias
onde você possa acompanhar, fotografar, se deleitar com este
espetáculo da natureza. A procriação deste
peixe é magnífica, um show.
Coloque o macho na caixa de cria e desenvolvimento de larvas de
Bettas (ou aquário), para que se sinta o dono
do território. Ele deve ficar sozinho neste espaço
por 2 dias aproximandamente. Decorrido este tempo, introduza a fêmea,
contida num cilindro transparente e incolor, afastado das bordas
da caixa (ou aquário), de forma a permitir que o macho circule
o cilindro, se exibindo para a fêmea, fazer a corte.
Este período de exposição deve durar aproximadamente
4 dias. Ao mesmo tempo que o macho corteja a fêmea, ele deve
contruir o ninho-bolha, para receber os ovos da postura da fêmea.
Por outro lado, a fêmea recebendo estímulos, começa
a produzir ovos. Ao final do quarto dia de "namoro", levante
o cilindro suavemente para não desmanchar o ninho-bolha.
No outro dia, pela manhã, existe uma enorme possibilidade
do casal já haver se entendido e dão início
ao acasalamento propriamente dito.

O macho leva a fêmea para baixo do ninho-bolha e o acasalamento
se inicia. Geralmente a fêmea neste momento está totalmente
submissa ao macho e procura nadar com a cabeça mais baixa.
Ambos procuram se colocar lado a lado, em sentidos opostos e vão
se "empurrando", como se medissem forças. Num determinado
momento a fêmea se afasta um pouco e nada em direção
ao macho, dando um giro no corpo, nadando de barriga para cima.
Ao passar ao lado do macho e dobra seu corpo, envolvendo a fêmea
e lhe dá um apertão (suave), ao mesmo tempo que fecunda
os ovos. Ambos dão uma pequena relaxada e caem desmaiados
ao fundo aquário. Enquanto a fêmea vai ao fundo, vai
liberando os ovos. O macho, tão logo recupera o controle
de seu corpo, passa a recolher os ovos com a boca e vai depositando
no ninho-bolha. Este processo pode durar horas, inúmeros
abraços ocorrerão, até que os ovos da fêmea
se esgotem. Naturalmente ela se afasta, foge do macho e neste momento
você deve retirá-la da caixa plástica (ou aquário),
sem agitar a água, sem correrias. Geralmente ela fica tão
esgotada que fica prostrada e permite ser capturada, sem muito esforço
para fugir.

O macho assume o controle da ninhada sozinho. Ele vai melhorando
e reparando o ninho-bolha, de acordo com a necessidade.

No máximo 48 horas após, as larvas nascem e ficam
"espetadas" no ninho. Quando caem ao fundo (na vertical),
por que são pesadas, estão com o sacos vitelinos ainda
cheios, o macho as recolhe na boca e as repõe no ninho-bolha.
Tarefa inglória, nascem aproximadamente 300 filhotes. Ele
fica a todo momento recolhendo as larvas e as recolocando no ninho-bolha.

Os filhotes, nesta fase da vida, se alimentam do saco vitelino,
que aos poucos vai se exaurindo e quando isto acontece eles começam
a conseguir nadar na horizontal. Passadas outras 48 horas, desde
a eclosão dos ovos, a maioria das larvas já nada na
horizontal e o macho está nitidamente exausto. Ao final do
dia é chegada a hora de retirar o macho da caixa plástica
(ou aquário). Pegue-o com uma rede de tramas largas, para
não capturar larvas acidentalmente ou com sua própria
mão, com muito cuidado.
No outro dia, pela manhã, as larvas passarão a ser
sua responsabilidade e precisam começar a comer. Comer aqueles
micro-organismos que você previamente começou a cultivar,
se preparando para o nascimento deles.
Coloque uma pedra porosa bem fraquinha nesta caixa de desenvolvimento
das larvas (ou aquário), tome o cuidado para mantê-la
sempre tampada para manter o ar bem úmido acima da lâmina
d'água. Pode retirar o suporte para o ninho, as proteções
oferecidas para a fêmea. Se você usou plantas naturais
como abrigo, pode deixá-las na caixa (ou aquário).
Comece a alimentar suas larvas de Bettas, sempre
em pequenas doses, o maior número de vezes possível,
durante o período de insolação. Se possível
de hora em hora. Se houver sobras, remova-as com o auxílio
de uma pipeta ou sifão, com muito cuidado para não
sugar larvas.
Varie a dieta das larvas, ofereça basicamente alimentos
vivos e pós bem finos. Depois dos 30 dias, já é
possível começar a introduzir na dieta as rações
industrializadas.
Os próximos 40 a 50 dias de vida das de Bettas
são bem críticos. A maioria da ninhada vai demorar
este tempo para ter o labirinto formado. Labirinto é por
onde os Bettas respiram, fora da água. Então
evite ficar abrindo a caixa para não dissipar o calor do
ar que está acima da lâmina d'água, cuidado
com os parâmetros da água (pH e temperatura) e mantenha
esta água saudável evitando sobras de comida, por
exemplo.
Marcio Luiz de Araujo
mlaraujo60@bettabrasil.com.br
Empresário, aquicultor urbano hobbysta, apaixonado
pela espécie Betta splendens, divulga e fomenta o cultivo da espécie
no Brasil e em outros países de língua portuguesa, através
do Betta Brasil WebSite.
Última revisão: 18/11/2012
Última
Atualização: 18.11.12 14:24
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