Os anjos negros do mundo dos Bettas
Nós, criadores de Bettas, às vezes nos acomodamos
num falso sentido de segurança. Pensamos que compreendemos tudo.
Em algumas ocasiões pensamos que realmente temos a genética e as
variações das cores solucionadas dentro de padrões compreensíveis
e previsíveis. E, muitas vezes, estamos errados!
Isso acontece comigo quando eu começo a contemplar o que eu sei,
ou o que não sei, sobre os Bettas pretos. Desde quando
analisei os tipos de cores eu pensei em trabalhar nisto. Não que
nada tivesse sido feito neste sentido. Há diversos artigos razoavelmente
bons sobre Bettas pretos na literatura, mas, nenhum
deles é realmente bom, portanto outra tentativa pode ainda derramar
luz sobre um assunto tão escuro! (desculpe o trocadilho eheheheh).
Como eu documentei em minha revisão antecipada (FAMA, abril,
1983), eles já eram conhecidos desde o início dos anos 30.
Eu os estudei extensivamente nos anos 60 quando fazia meu doutorado
usando linhagens de diversas fontes. Eles não eram abundantes na
época, mas estavam ao redor. Don Cook, de Decatur, Illinois, discutiu
sobre eles em uma coluna da edição de Setembro/Outubro de 1966,
do Aquarium Illustrated.
Minha dissertação de doutorado discute a genética com considerável
profundidade (1968). Eu publiquei um artigo sobre pretos férteis
no TFH, em 1972.
Um artigo muito questionável que sugere que os pretos tinham surgido
devido à radiação (Aquarium International Volume
3, #4 - 1975), foi assinado pelo Dr. Schmidt-Focke, e afirma
que isto foi feito após a Segunda Guerra Mundial. Mas, se os pretos
já eram conhecidos no início dos anos 30, isto não poderia ser verdadeiro.
Finalmente, o último artigo de maior significado de que estou ciente
é de autoria da Dra. Suzanne Liebetrau e foi publicado no TFH, em
1979.
Naturalmente, outros artigos foram escritos para diversos boletins
pertencentes aos clubes de aquariofilia, mas tais fontes são geralmente
não confiáveis e apócrifas. A meu conhecimento, ninguém além de
mim fez extensivos estudos sobre a genética dos pretos e publicou
os resultados. De fato, minha publicação reside somente na dissertação,
mas essa informação é disponível e legítima. Qualquer um que desejar
ver os resultados e análise pode obter cópias através dos sumários
da dissertação em Ann Arbor, Michigan.
Eu o menciono aqui somente porque esse esforço produziu (para melhor
ou para pior!) a terminologia e os dados genéticos que constituem
a base atual de nossa criação. Essas informações poderiam muito
bem causar problemas atualmente. Na época em que esse trabalho foi
feito nós não tínhamos nenhuma linhagem de Bettas
mármores bem fixada, ou pretos férteis, ou outras linhagens que
nos dão regularmente Bettas pretos.
Eu selecionei o nome "melano" para designar Bettas
pretos porque eu estava procurando por um símbolo genético utilizável.
Não podia utilizar "b" (de black) desde que já tinha sido utilizado
para "blond Cambodia" pelo Dr. Myron Gordon. Eu já tinha me decidido
usar "BL" (para o azul) como um símbolo mais apropriado para as
variações de iridescência ou cores metálicas. Desde que a variação
pareceu mostrar e aumentar o pigmento melanina, eu estava propenso
a utilizar um termo que significasse, ou se referisse a preto, mas
não começasse com B. Nomes como "Negro", "Negrescente", "melanístico"
e "melano" pareciam mais científicos de algum modo do que algo como
preto "Carvão" ou preto "Molinésia". Nós já estávamos envolvidos
em discussões apaixonadas sobre os albinos e o termo "melano" pareceu
uma antítese perfeita ao albino. A lógica de tudo isso se articula,
naturalmente, na suposição de que os Bettas pretos
eram, e são, melanísticos. Não há nenhuma dúvida que os Bettas
pretos parecem ter melanóforos pretos em toda parte que tenha coloração
preta.
Infelizmente, há fatores estranhos e confusos sobre os pretos que
ainda têm de ser resolvidos:
Um é que as barras, pontos, e outros padrões pretos que são vistos
em Bettas de outras cores podem ainda ser vistos em
pretos.
Outro é que Bettas vermelhos parecem ter células
de pigmento vermelho exatamente como os melanóforos nos pretos.
Outro ponto ainda é que a extração dos pigmentos vermelhos e pretos
com hidróxido de amônia revela quantidades consideráveis de pigmento
pterina em ambos os Bettas vermelhos e pretos.
E ainda: quando se examina os pretos de perto, estes parecem ser
pretos onde os outros são vermelhos!
Por último é especialmente visível: a diluição do pigmento próximo
das bordas das nadadeiras ou das pontas brancas que nós freqüentemente
vemos nos padrões de butterfly. Uma conclusão que pode ser pensada
é que o preto e o vermelho são duas versões do mesmo pigmento. E
isto é algo além de melanina. Se isso for verdadeiro, é possível
que os pretos não sejam melanísticos de todo! Haveria uma "pterina
vermelha" e uma "pterina preta". Ou, inversamente, talvez nós tivéssemos
uma "melanina preta" e uma "melanina vermelha!" Dias celestiais!
Algumas de minhas pesquisas atuais tratam das tentativas de resolver
estas questões. Eu tenho alguns trabalhos envolvendo machos pretos
cruzados com fêmeas vermelhas. Nós evitávamos isto no passado já
que nós supúnhamos que o vermelho daria um tom mais marrom aos pretos.
Pode ser ou pode não ser. Eu poderia estar em um caminho para tornar
esse pigmento comum, se fosse comum (pigmentos preto e vermelho),
mais intenso. Eu consegui, exatamente como antecipei, nos cruzamentos
da primeira geração, peixes avermelhados com bastante cor metálica
sobre eles (multicoloridos). Entretanto, há uns pretos nas segundas
gerações. Nenhum está desenvolvido o bastante ainda para dizer o
quanto bom eles serão.
Bettas mármore, especialmente os mármores pretos,
têm sido visto desde os anos 20 (apesar das afirmações em contrário),
mas não estavam bem conhecidos e disponíveis até que um esforço
sério foi feito para organizar e desenvolver o hobby dos Bettas
através dos circuitos de exposições (principalmente o Congresso
Internacional do Betta - IBC). Eu vi o desenvolvimento
dos Bettas mármores ao mesmo tempo em que vi o desenvolvimento
dos Bettas pretos férteis (o conhecido black lace).
Eu estou razoavelmente convencido que, tanto o Betta
mármore quanto o Betta preto fértil, são todos de
uma mesma linhagem fonte. Nós regularmente temos mármores que nunca
se marmorizam (perda de pigmentos em borrões) e eu tive muitos que
eram bem pretos. Ambos os sexos são férteis. Qualquer dos sexos
pode ser selecionado para o desenvolvimento da cor sólida nas linhagens
de mármore e consegui-la em poucas gerações. A distribuição da cor
iridescente nos mármores é similar à que encontramos em pretos férteis.
Muitas destas questões são acadêmicas, literalmente. A maioria
dos criadores podiam se importar menos com algumas destas coisas.
No entanto, se a levarmos em conta, elas nos darão as melhores diretivas
para um progresso mais rápido. O problema persistente da cor metálica
em nossas melhores linhagens de pretos, levou-me a sugerir, alguns
anos atrás, que o azul-aço seja uma linhagem de trabalho melhor
que a verde ou a azul brilhante. Eu senti isto desde que percebi
que a iridescência dela [a do azul-aço]
é a mais apagada de todas e, portanto, deve ser a menos visível.
A maioria dos melhores pretos de hoje carregam aquela variação de
cor.
Eu também sugeri que cruzamentos com outras linhagens fossem feitos,
não importando o custo, para começar a diminuir a cor metálica (como
fazemos nos amarelos e nos vermelhos), contudo quando eu vejo fêmeas
das linhagens pretas, elas sempre são cobertas fortemente com iridescência.
Cruzamentos com vermelhos ou com amarelos devem ajudar (a diminuir
a iridescência), mas todos ficam receosos com tais cruzamentos,
temendo começar a avermelhar ou amarelar o preto. É verdade, poderia.
Mas poderia também conseguir alguns pretos melhores no final. Ao
contrário, houve uma melhoria marginal através dos anos. Um pode
melhorar a cauda e aprofundar o preto, mas se um defeito é retido,
o resultado é ainda insatisfatório.
O preto traduzido como "melano" é ainda nossa melhor compreensão
e a mais viável linhagem. Geneticamente, é uma simples e única mutação
genética, recessiva em relação ao normal. Cruzamentos com não melanos
produzem somente prole normal (a menos que o não melano carregue
o gene melano).
No diagrama a seguir, cruzamos um macho preto com uma fêmea de
outra cor e produzimos todos os filhotes não pretos. Porém, todos
terão um gene "m", que poderão transmiti-lo às próximas gerações
(F2).

As desovas F2 rendem 25% de melanos aproximadamente. Isto é mostrado
no diagrama de acasalamentos # 2. Assim, teremos 25% de pretos e
75% de peixes de outras cores. Desses 75%, apenas 25% não poderão
fornecer pretos em seus cruzamentos já que não possuirão o gene
"m" (é o grupo dos "xy").

Um efeito colateral incomum, conhecido dos geneticistas como "pleiotrópico",
é que as fêmeas deste tipo (mm) não podem produzir a prole viável.
Podem ser fortes, saudáveis e pretas como machos, mas seus ovos
ou filhotes nunca sobrevivem. Fêmeas híbridas (aquelas que carregam
um gene melano) nunca se parecem com pretas, mas podem produzir
preto, de ambos os sexos. Os machos melano são perfeitamente normais
em termos de reprodução. Pretos férteis também parecem ser o resultado
de um simples gene recessivo. A linhagem é indescritível. Eu não
sei de ninguém que trabalha com eles até o presente momento. Como
eu disse antes, acredito que eles venham de (ou deram ascensão aos)
mármores. Nós podemos também chamar o gene "f" - de fértil- (desde
que ele não tenha sido oficialmente nomeado antes).
O diagrama de acasalamento #3 mostra o perfil de herança idêntico
a do melano.

Toda a ninhada será de outra cor diferente de preto. Porém, todos
possuirão o gene "f", que poderá ser transmitido às demais gerações.
Mais interessante é o que acontece quando você cruza melanos com
pretos férteis. Pareceria que tais acasalamentos dariam todos os
indivíduos pretos mas não é o que acontece!
O diagrama de acasalamento #4 mostra que os dois genes responsáveis
("f" e "m") não são alelos um do outro e estão em diferentes posições.

Quando eles não se emparelham, suas contrapartes na outra linhagem
são normais e dominantes sobre as versões mutantes ("m" ou "f").
Assim, o gene normal do preto fértil impede que o melano se manifeste
e o gene normal do melano impede que o preto fértil se manifeste.
A prole é toda normal (bem distante da pigmentação preta). Tais
cruzamentos representam um fenômeno genético chamado "reversão ao
tipo selvagem" (ou normal, na expressão desse pigmento).
Isto acontece em muitas circunstâncias e não é nenhuma causa para
alarme. O preto não está perdido. Os cruzamentos entre os indivíduos
normais da prole F1 produzirão ambos os tipos de pretos no F2 (preto
fértil e melano) e, teoricamente, alguns terão ambos os genes (mfmf).
Estes poderão ser super pretos (melanos férteis) se qualquer um
quisesse trabalhar com eles. Observe no diagrama #4 que um quarto
deles será melano (contando com o mfmf) e um quarto daqueles poderiam
também ser preto fértil (contando com o mfmf). Somente um dezesseis
avos da ninhada são necessários para garantir que há uma possibilidade
razoável de se encontrar algum super preto (mfmf). Se você pensar
que os têm, não espere ter fêmea fértil. Eu penso que a causa da
infertilidade nos melanos não desaparecerá porque o preto fértil
está no mesmo indivíduo junto com o melano (os mfmf). Eu poderia
estar errado, mas quando um gene causa uma falha como aquela (infertilidade
nas fêmeas) não há nada que o outro gene possa neutralizar.
Naturalmente nós todos queremos um Betta preto carvão
ou um preto como um molinésia. Afinal de contas, nós os classificamos
como uma cor sólida em nossos padrões de exposição. O que necessitamos
para consegui-lo? Nós podemos identificar as combinações de traços
de cores. São elas:
- aumento na profundidade do preto;
- distribuição e densidade do preto e
- a eliminação de qualquer sujeira como vermelho amarelo, verde
ou azul.
Se estivermos tentando criar pretos, eu faria alguns cruzamentos
abertos com vermelhos ou amarelos e então, faria alguns cruzamentos
e seleção. Se pudesse reduzir a cor iridescente e manter ambos melano
e preto fértil dentro do estoque ao mesmo tempo, então teria feito
tudo que poderia fazer para viabilizar os genes juntos. Neste ponto
começamos criando e selecionando os melhores Bettas
de cada geração para reprodutores.
Uma palavra ou duas a respeito dos "maus" Bettas
pretos - e a maioria é mais má do que boa. Eu penso que não observamos
nossos pedigrees e nossos resultados dos cruzamentos. Existe alguma
variação em como os pretos de uma ninhada serão, assumindo que todos
são geneticamente semelhantes. Alguns serão bem mais escuros e outros
mais claros. Os mais claros podem ser aquela cor de argila, ou cinza
ou marrons. Cruzando com vermelhos, por exemplo, será introduzido
o amarelo na linhagem. O que reduz o preto significativamente. Um
preto amarelado não soa tão promissor! Cambodia, que também afeta
o preto, poderia ser introduzido pelo cruzamento com amarelos. Não
há problema, mas estas variações ocorrerão e deverão ser excluídas
dos estoques ao longo do tempo.
Bem, eu espero que o que explanei não tenha trazido mais confusão.
Eu estaria mais satisfeito se encontrasse alguém que seguisse o
que foi dito e terminasse com o mais cobiçado Betta
preto.
Será você esta pessoa a consegui-lo?
Gene A. Lucas, PhD.
g.a.lucas@worldnet.att.com
FAMA magazine, Jul/83
Tradução:
Vitor Calil Chevitarese
vitorchevitarese@gmail.com
Aquarista hobbysta desde 1963, apaixonado pelo Betta
e sua genética, com ênfase na disseminação da idéia de preservar, manter e aprimorar
as linhagens existentes. Consultor do CEA - Centro de Estudos para Aquariofilia,
para assuntos ligados aos Bettas splendens e membro da AQUORIO.
Publicação autorizada: 26/05/2010
Última
Atualização: 22.07.10 13:09
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