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"Esgotamento genético" na criação de Bettas splendens

O grande problema de qualquer trabalho genético com os Bettas chama-se "alta consangüinidade", com qualquer linhagem (seja ela de: pretos, amarelos, vermelhos, azuis, copper etc.).

Para se retardar o processo de "esgotamento genético" devido a isso (vai essa expressão na falta de outra melhor) - processo esse que é denunciado pela presença de Bettas "arrastadores", muito miúdos, tortos, com caroços, e outras deformidades etc. -, utilizo o seguinte expediente:

  1. logicamente, parto de um casal inicial - tento saber se já são aparentados diretamente (se já são irmãos, se é pai e filha, se é filho e mãe - mais difícil de ocorrer - ou se são tios e sobrinhos) ou se não há qualquer parentesco próximo;

  2. caso já haja, classifico o pai (p. ex.) de P e a filha (ou sobrinha) de F1 - só para já acusar a presença de uma certa consangüinidade. Esse será o meu início;

  3. os filhos desse cruzamento P x F1 será a minha linha de sangue L1 (que é um cross breeding - cruzamento entre parentes que não sejam irmãos), gerando, dentro dessa linha, os meus reais F1 (e não F2 como seríamos tentados a classificá-los, pois só seria F2 se, e somente se, houvesse um cruzamento entre irmãos - F1 x F1);

Para continuar a explanação, vou trabalhar de forma simplificada pegando apenas 3 irmãos frutos desse cruzamento P x F1 (1 macho e 2 fêmeas) - não podemos nos esquecer: da linha de sangue L1, em F1.

Então, teremos os seguintes acasalamentos distintos possíveis: P x filha e irmão x irmã (vamos evitar o cruzamento entre pai e filho, OK? rsrsrs).

  1. P x filha será a minha linha de sangue L2 (que é um outro cross breeding), gerando os meus verdadeiros F1;

  2. irmão x irmã é a continuação da minha linha de sangue L1, só que em F2 (que é um in breeding);

Nesse ponto, observe que já temos duas linhas de sangue distintas (não confundir com linhagens distintas; são duas linhas de sangue dentro de uma mesma linhagem):São elas L1 (já em F2) e L2 (em F1).

  1. aqui poderemos ter várias soluções de cruzamentos - produzindo-se, até, mais uma linha de sangue - de tal modo a não se aprofundar em demasia uma ramificação de linha de sangue:

    L1
    L2
    L3
    F2 x F2
    F1 x F1
    F2 (da linha L1) x F1 (da linha L2)
    F3
    F2
    F1

Podemos ver que a coisa começa a ocupar espaço e necessita de um apurado controle de ninhadas - estas não podem ser misturadas por motivos óbvios.

Eu sempre só fui até F3. Ou seja, evito cruzar F3 x F3 gerando F4, porque pessoalmente, já considero F4 uma alta a consangüinidade (mas, isso é um "felling" meu; há amigos meus, bons criadores, que não levam muito a sério essa minha recomendação, vão um pouco mais adiante, e, também, têm Bettas maravilhosos).

A vantagem de tal procedimento é que todos os conjuntos genéticos (linhas de sangues) estão sob o seu controle; você sabe perfeitamente o que está ocorrendo em cada um deles - daí a necessidade de fichas com tudo anotado sobre o que ocorreu com cada ninhada específica (quantos aleijados, quantos "isso", quantos "aquilo", quantos estão marmorizando, quantos butterflies estão aparecendo (estão aumentando em número?), como está se comportando o nível de iridescência (se está aumentando, se está diminuindo etc).

Dessa forma você sabe que determinada linha está mais estável do que outra - poderá abandonar uma delas ou poderá criar outras.

Claro está que tal procedimento não poderá continuar indefinidamente; haverá a necessidade de outros criadores - com a mesma filosofia de trabalho que a sua (isso é um sonho, mas vamos devanear e acreditar que tal coisa possa ocorrer, OK?) - para podermos fazer out crossing (cruzamento entre peixes sem qualquer parentesco), o que trará saúde com esse "choque de sangue".

Mesmo que não se encontre tais criadores - o que será o mais provável de ocorrer -, se você estiver mexendo com Bettas pretos, p. ex., pegue uma fêmea escura qualquer (azul royal, azul aço - a melhor opção) - mesmo que seja de pet shop, "pé duro", VT, com pouco brilho e crie uma linha de sangue à parte, cruzando-a com um macho de qualquer de suas linhas atuais.

Independente do resultado de qualidade da ninhada, pegue uma filha dessa ninhada (fruto desse out crossing) e volte de novo no pai dela (um cross breeding, tipo Pai x filha ), e o trabalho recomeça novamente, incrementando as outra linhas de sangue.

O maior problema que se tem em tal filosofia de trabalho é que sempre surge durante o processo de seleção, alguns fenótipos fantásticos que nos provoca uma tentação de se começar a trabalhar com eles também. Isso é uma "furada" que coloca todo o trabalho a perder!

Explico: pelo que expus acima, dá para notar que o número de aquários aumentará assustadoramente, pois as ninhadas deverão estar separadas e assim mantidas até o enjarramento de machos e fêmeas, cada qual devidamente identificado por etiquetas.

Se não quiser enjarrar as fêmeas, então, o aquário onde todas elas ficarão juntas deverá ser, também, identificado, e utilizado somente por elas.

Assim sendo, se surgir uma coisa maravilhosa - um fenótipo diferente, bonito -, esta deverá ter um tratamento igual e à parte daquele destinado à sua linhagem inicial, o que demandará uma outra bateria gigantesca de novos aquários! Assim, é preferível passar essa "coisa rara e diferente" para um outro criador desenvolver, checar etc., em suma, levar adiante - e, dessa forma, também, matar a nossa curiosidade do que poderia dar daquele fenótipo -, do que tentar levar os dois trabalhos em paralelo.




Vitor Calil Chevitarese
vitorchevitarese@gmail.com
Aquarista hobbysta desde 1963, apaixonado pelo Betta e sua genética, com ênfase na disseminação da idéia de preservar, manter e aprimorar as linhagens existentes. Consultor do CEA - Centro de Estudos para Aquariofilia, para assuntos ligados aos Bettas splendens e membro da AQUORIO.




Publicação autorizada: 28/05/2010

Última Atualização: 22.07.10 13:09

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