"Esgotamento genético"
na criação de Bettas splendens
O grande problema de qualquer trabalho genético com os Bettas
chama-se "alta consangüinidade", com qualquer linhagem (seja ela
de: pretos, amarelos, vermelhos, azuis, copper etc.).
Para se retardar o processo de "esgotamento genético" devido a
isso (vai essa expressão na falta de outra
melhor) - processo esse que é denunciado pela presença de
Bettas "arrastadores", muito miúdos, tortos, com
caroços, e outras deformidades etc. -, utilizo o seguinte expediente:
- logicamente, parto de um casal inicial - tento saber se já
são aparentados diretamente (se já são irmãos, se é pai e filha,
se é filho e mãe - mais difícil de ocorrer - ou se são tios e
sobrinhos) ou se não há qualquer parentesco próximo;
- caso já haja, classifico o pai (p. ex.) de P e a filha
(ou sobrinha) de F1 - só para já acusar a presença de uma
certa consangüinidade. Esse será o meu início;
- os filhos desse cruzamento P x F1 será a minha
linha de sangue L1 (que é
um cross breeding - cruzamento entre parentes que não sejam
irmãos), gerando, dentro dessa linha, os meus reais F1
(e não F2 como seríamos tentados a classificá-los, pois
só seria F2 se, e somente se, houvesse um cruzamento entre
irmãos - F1 x F1);
Para continuar a explanação, vou trabalhar de forma simplificada
pegando apenas 3 irmãos frutos desse cruzamento P x F1
(1 macho e 2 fêmeas) - não podemos nos esquecer: da linha
de sangue L1, em F1.
Então, teremos os seguintes acasalamentos distintos possíveis:
P x filha e irmão x irmã (vamos evitar
o cruzamento entre pai e filho, OK? rsrsrs).
- P x filha
será a minha linha de sangue L2
(que é um outro cross breeding), gerando os meus verdadeiros
F1;
- irmão x irmã
é a continuação da minha linha de sangue
L1, só que em F2
(que é um in breeding);
Nesse ponto, observe que já temos duas linhas de sangue distintas
(não confundir com linhagens distintas; são duas linhas de sangue
dentro de uma mesma linhagem):São elas L1 (já em F2)
e L2 (em F1).
- aqui poderemos ter várias soluções de cruzamentos - produzindo-se,
até, mais uma linha de sangue - de
tal modo a não se aprofundar em demasia uma ramificação de linha
de sangue:
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L1
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L2
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L3
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F2 x F2
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F1 x F1
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F2 (da linha L1) x F1
(da linha L2)
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F3
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F2
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F1
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Podemos ver que a coisa começa a ocupar espaço e necessita de um
apurado controle de ninhadas - estas não podem ser misturadas
por motivos óbvios.
Eu sempre só fui até F3. Ou seja, evito cruzar F3
x F3 gerando F4, porque pessoalmente, já considero
F4 uma alta a consangüinidade (mas, isso é um "felling"
meu; há amigos meus, bons criadores, que não levam muito a sério
essa minha recomendação, vão um pouco mais adiante, e, também, têm
Bettas maravilhosos).
A vantagem de tal procedimento é que todos os conjuntos genéticos
(linhas de sangues) estão sob o seu controle; você sabe perfeitamente
o que está ocorrendo em cada um deles - daí a necessidade de fichas
com tudo anotado sobre o que ocorreu com cada ninhada específica
(quantos aleijados, quantos "isso", quantos "aquilo", quantos estão
marmorizando, quantos butterflies estão aparecendo (estão
aumentando em número?), como está se comportando o nível de iridescência
(se está aumentando, se está diminuindo etc).
Dessa forma você sabe que determinada linha está mais estável do
que outra - poderá abandonar uma delas ou poderá criar outras.
Claro está que tal procedimento não poderá continuar indefinidamente;
haverá a necessidade de outros criadores - com a mesma filosofia
de trabalho que a sua (isso é um sonho, mas vamos devanear e acreditar
que tal coisa possa ocorrer, OK?) - para podermos fazer out crossing
(cruzamento entre peixes sem qualquer parentesco), o que trará saúde
com esse "choque de sangue".
Mesmo que não se encontre tais criadores - o que será o mais provável
de ocorrer -, se você estiver mexendo com Bettas pretos,
p. ex., pegue uma fêmea escura qualquer (azul royal, azul aço -
a melhor opção) - mesmo que seja de pet shop, "pé duro",
VT, com pouco brilho e crie uma linha de sangue
à parte, cruzando-a com um macho de qualquer de suas linhas atuais.
Independente do resultado de qualidade da ninhada, pegue uma filha
dessa ninhada (fruto desse out crossing) e volte de novo
no pai dela (um cross breeding, tipo Pai x filha
), e o trabalho recomeça novamente, incrementando as outra linhas
de sangue.
O maior problema que se tem em tal filosofia de trabalho é que
sempre surge durante o processo de seleção, alguns fenótipos fantásticos
que nos provoca uma tentação de se começar a trabalhar com eles
também. Isso é uma "furada" que coloca todo o trabalho a perder!
Explico: pelo que expus acima, dá para
notar que o número de aquários aumentará assustadoramente, pois
as ninhadas deverão estar separadas e assim mantidas até o enjarramento
de machos e fêmeas, cada qual devidamente identificado por etiquetas.
Se não quiser enjarrar as fêmeas, então, o aquário onde todas elas
ficarão juntas deverá ser, também, identificado, e utilizado somente
por elas.
Assim sendo, se surgir uma coisa maravilhosa - um fenótipo diferente,
bonito -, esta deverá ter um tratamento igual e à parte daquele
destinado à sua linhagem inicial, o que demandará uma outra bateria
gigantesca de novos aquários! Assim, é preferível passar essa "coisa
rara e diferente" para um outro criador desenvolver, checar etc.,
em suma, levar adiante - e, dessa forma, também, matar a nossa curiosidade
do que poderia dar daquele fenótipo -, do que tentar levar os dois
trabalhos em paralelo.
Vitor Calil Chevitarese
vitorchevitarese@gmail.com
Aquarista hobbysta desde 1963, apaixonado pelo Betta
e sua genética, com ênfase na disseminação da idéia de preservar, manter e aprimorar
as linhagens existentes. Consultor do CEA - Centro de Estudos para Aquariofilia,
para assuntos ligados aos Bettas splendens e membro da AQUORIO.
Publicação autorizada: 28/05/2010
Última
Atualização: 22.07.10 13:09
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