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Diretrizes para dimensionamento de estufas de Bettas

O dimensionamento de cada estufa dependerá da finalidade para a qual ela se destina. Pode ser para o desenvolvimento de Bettas:

  • sem (ou quase) nenhum controle genético das linhagens; ou
  • com qualidade genética certificada.

Este trabalho tem o enfoque voltado para a segunda finalidade.


Premissas nas quais esse trabalho se apoiará:


1- Quanto ao manejo:

  1. uma ninhada de um Betta leva de dois a três meses para se desenvolver, desde o nascimento até ser colocada nas betteiras, por tanto, foi dada uma tolerância de três meses na ocupação dos tanques devido aos retardatários;

  2. uma ninhada será sempre separada em dois aquários de crescimento (ou caixas plásticas) - chamados de tanques;

  3. os filhotes alfas de cada tanque serão separados dos demais irmãos, através de cilindros de plástico (sem fundo) obtidos a partir de garrafas pet, que ficarão apoiados no fundo do tanque, de tal modo que eles possam continuar a conviver com os demais irmãos, sem se tornarem uma ameaça constante para eles.

Para tanto, recomendo a leitura do excelente trabalho do Wilson Vianna, intitulado: "A seleção dos melhores Bettas splendens - Uma discussão".


2 - Quanto às linhas de sangue dentro de uma mesma linhagem:

  1. haverá, sempre que possível, três linhas de sangue distintas;

  2. em cada uma delas só se poderá avançar até F3.

    Observação:
    aconselho a leitura de meu trabalho "Esgotamento genético" na criação de Bettas splendens.


3 - Outros pontos importantes a serem observados:

  1. a quantidade de linhagens que se irá trabalhar simultaneamente;

  2. há linhagens que poderão coexistir crescendo em um mesmo tanque, desde que o desenvolvimento delas sejam compatíveis;

    Em outras palavras, há linhagem que se desenvolve mais rápido que outra; portanto, coloca-las em um mesmo tanque poderá ser prejudicial para aquela de desenvolvimento mais lento.

  3. fenótipos parecidos, porém, oriundos de linhagens diferentes, não poderão ficar juntos em um mesmo tanque.

    Como exemplo, podemos citar os Copper e os Black Copper. Não será possível - se queremos um controle rigoroso sobre os trabalhos genéticos com essas linhagens - colocar tais ninhadas juntas, pois sabemos que os Black Copper sempre poderão gerar Bettas Copper.


4 - Início do trabalho:

  1. obtido o casal desejado, efetuamos o cruzamento, colocando-o dentro do tanque 1 (TQ1).

    Observação: claro está que se poderá lançar mão de um aquário à parte, independente do TQ1, para o referido acasalamento e primeira quinzena de crescimento, mas, o espaço desse deverá ser levado em consideração no cálculo final do tamanho da estufa.

Assim, iniciamos a nossa linha de sangue 1 (L1).

  1. essa ninhada (F1), ficará junta durante quinze dias no TQ1 e, depois disso, uma parte dela (mais ou menos a metade) será colocada em outro tanque (TQ2), onde permanecerão durante três meses - ver (1b) -, tempo no qual será observado o manejo sugerido em (1c).

  2. betteiras deverão ser disponibilizadas para acomodar os machinhos que forem se destacando, bem como, um aquário (AQ1) para acomodar as fêmeas maiores, irmãs deles.

Nesse ponto, temos betteiras com o pai, a mãe e os machinhos.

  1. deverão ser escolhidas duas fêmeas desse lote:
    • uma para continuar L1; e

    • uma outra para voltar no pai e criar a linha de sangue 2 (L2);
  1. será escolhido um irmão delas para continuar L1 (em F2);

  2. aconselho, nesse ponto, a:
    • descartar todos os retardatários que estejam em TQ1 e TQ2;

    • separar um outro casal de irmãos como segurança; e

    • descartar todos os demais irmãos (machos e fêmeas).

      Esse procedimento deverá ser seguido em qualquer linha de sangue e em qualquer geração dentro dessa linha.

Nesse ponto teremos, no mínimo, sete betteiras ocupadas, da seguinte maneira:

  • pai;
  • mãe (se achar necessário);
  • macho (que continuará L1);
  • fêmea (que continuará L1);
  • macho (reserva);
  • fêmea (reserva); e
  • fêmea (que iniciará a L2).

    Observação: Repare que não se pegou uma mesma fêmea para iniciar L2 e continuar L1, desse modo, já se evitando um aumento na taxa de consangüinidade, pois mesmo entre irmãos, sempre haverá algumas diferenças nas cargas genéticas.


5 - Continuando o trabalho:

  1. nesse ponto já obtemos F2 na L1 e F1 na L2. veja o cronograma:

Figura 01

  1. na L1, F2 foi obtido com o cruzamento de dois irmãos F1;

  2. na L2, F1 foi obtido com o cruzamento do pai com a filha (da L1 em F1);

  3. nesse ponto, pegamos um macho da L1 em F1 (de preferência, aquele que ficou como reserva e que não foi utilizado) e cruzamos com uma fêmea da L2 em F1, gerando a linha de sangue L3.

    Mas, por que não se lançar mão de um macho da L1 em F2, em detrimento do macho da L1 em F1?

    Aqui cabe um leque de discussões e dependerá sempre da qualidade do material genético que está surgindo (fenótipos):

    Se o macho da F2 da L1 for melhor que aquele da F1 (da L1, é claro), pode-se utilizá-lo e descartar o outro.

    Porém, se a diferença não for muito significativa, a "distância genética" do F1 da L1 será maior do que aquela do F2 da L1, para a geração da fêmea F1 da L2.

    Esse fato não está ligado à idade, e sim, a um maior afastamento dos conjuntos de genes (cargas genéticas) de ambas as gerações e linhas de sangues distintas, dando chance a outras combinações diferentes de genes, com menor atuação dos genes "nocivos" que podem surgir desses acasalamentos entre parentes muito próximos, devido à alta consangüinidade.

    Pelo menos, vejo dessa maneira, sem qualquer base científica para me amparar nessa afirmativa.

    Visualizando essa discussão:

    Figura 02

    Pelo exposto, vemos que a utilização de um macho da L1 em F1 apresentará uma L3 com uma carga genética menos fechada do que aquela utilizando um macho da L1 em F2;

  4. qualquer que seja a escolha para gerar L3 utilizando-se uma fêmea da L2 em F1 com um macho da L1 - L1 em F1 ou L1 em F2 -, teremos o cronograma:

    Figura 03


6 - Chegamos em F3 na linha de sangue 1 (L1):

  1. de acordo com a premissa (2c), ao se atingir F3 em qualquer linha, há a necessidade de se fazer um "out crossing" - uma abertura total de linha de sangue -, para se iniciar novamente aquela linha;

  2. nesse caso, a L1 - como já era esperado - atingiu primeiramente essa marca e, pode-se abrir essa linha com um indivíduo (um macho ou uma fêmea, não importa) de outro criador, o mais geneticamente possível afastado daqueles com os quais se esteja trabalhando, de preferência, sem qualquer parentesco.

    Então, podemos mostrar a evolução do cronograma de cruzamentos:



    Repare que a mesma discussão que se fez em (5d) poderia ser reaberta aqui, no tocante aos "novos ciclos" das linhas de sangue L2 e L3.

    Por que não se utilizar indivíduos mais afastados geneticamente em detrimento daqueles mais próximos?

    O novo ciclo da L2 poderia ser desenvolvido com indivíduo da L3, mas em F1 - ao invés de F2 -, p.ex.

    O mesmo raciocínio poderia ser aplicado ao novo ciclo da L3, lançando-se mão de indivíduo da F2, ao invés de F3 (ou mesmo da F1).

    Isso implica em se ter mais betteiras disponíveis para guardar esses indivíduos, forma a tê-los à nossa disposição no momento exato.

Com essa estratégia, pode-se continuar o trabalho de forma segura e continuada.


7 - Últimas considerações:

  1. não podemos nos esquecer que, a qualquer momento pode-se lançar mão de aberturas de sangue, ou mesmo, cruzamentos entre linhas distintas de sangue (line breeding), sem a obrigatoriedade de se chegar até F3.

  2. o mesmo se aplica a se avançar mais dentro de cada linha (inbreeding) e passar de F3 (F4, F5 etc.).

    O cuidado que recomendo ter - para esse último tópico - é a observação cuidadosa dos resultados estruturais das ninhadas - independente de qual grau "F" esteja aquela linha de sangue -, com os possíveis aumentos nas quantidades de indivíduos defeituosos, fracos, doentes, com pouco desenvolvimento, "arrastadores", o aparecimento de calombos ou cavidades no corpo - especialmente, na cabeça -, Bettas apresentando o dorso protuberante (cabeça de golfinho e muito "bicudos"), nadadeiras tortas (ou a ausência das mesmas), corpos desproporcionais quando comparados com o conjunto de nadadeiras, ou seja, falta de um maior equilíbrio estético (Betta de corpo pequeno e nadadeiras imensas ou corpo enorme e nadadeiras pequenas).

  3. deve-se fotografar todos os Bettas com os quais se tenha trabalhado, se possível, dentro de condições idênticas (mesma máquina, com mesma regulagem, mesma iluminação, mesmo aquário - transparência do vidro e da água - etc.), principalmente, se a linhagem for de Betta metálico, ou com alto índice de iridescência.

    Recomendo a leitura de meu trabalho "Básico da genética dos Bettas - Parte 1", para esclarecimento sobre o que seja um Betta metálico e/ou iridescente.

  4. por último, cabe lembrar que todo esse trabalho foi desenvolvido para uma única linhagem!

    Caso se deseje trabalhar com mais de uma, todas as quantidades envolvidas deverão ser multiplicadas pelo total de linhagens!

  5. quanto ao número de betteiras necessárias, deixo a quem desejar aplicar as informações e recomendações contidas nesse trabalho, a tarefa de dimensiona-las, pois, dependendo da opção filosófica que utilizar, esse número poderá variar bastante.



Vitor Calil Chevitarese
vitorchevitarese@gmail.com
Aquarista hobbysta desde 1963, apaixonado pelo Betta e sua genética, com ênfase na disseminação da idéia de preservar, manter e aprimorar as linhagens existentes. Consultor do CEA - Centro de Estudos para Aquariofilia, para assuntos ligados aos Bettas splendens e membro da AQUORIO.


Publicação autorizada: 11/06/2010

Última Atualização: 22.07.10 13:10

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