Cruzamentos entre Bettas
mármores só produzem mármores?
O traço mármore é recessivo, porém, há uma sutileza que requer
uma explicação adicional, a meu ver.
Pode-se cruzar dois mármores e nascer alguns Betta
não manifestando o traço. Mas, claro, qualquer Betta
filho de um casal de mármores, não serão meros portadores do gene;
serão, realmente (geneticamente falando), mármores!
Afirmo isso, baseando-me no fato de que há Bettas
que nascem sólidos, de pais mármores, sem nenhuma perda de coloração
e, que, de repente, começam a sofrer o processo que chamo de "vitiligo"
- pela similaridade com aquela perda de pigmentação na pele, que
pode ocorrer nos seres humanos -, tais como, manchas descoradas,
até a perda total da pigmentação .
Porém, outros, realmente, não se marmorizam (não apresentarão o
fenótipo).
Ou seja, se a afirmativa é verdadeira - se o traço mármore é
recessivo, então, dois mármores produzirão somente mármores
(pois, são homozigóticos para o traço, tipo "mb mb") -, então, por
que surgem Bettas nessas ninhadas que não se marmorizam
durante toda a sua vida?
A meu ver, o "gene mármore", na verdade, não é único - acredito
que todos os traços dos Bettas não são devidos à ação
de um único gene -, e sim, um conjunto de genes, dentre os quais
(no caso do "gene mármore") há aqueles que determinam
o tempo, contado a partir do nascimento do bettinha - vamos assim
dizer - para que a ocorrência do processo de marmorização no fenótipo
do Betta se manifeste; pode ser no prazo de 2 meses,
de 5 meses, pode ser zero mês, ou seja, o bettinha já nasce descolorido,
ou pode conservar a aparência, p.ex., sólida, durante toda a vida
dele (para esses poderíamos supor um prazo de 4 anos, p.ex. rsrsrs
- mas, pena que ele morre antes de o processo começar...).
Isso já ocorreu, infelizmente, comigo (que amo os Bettas
sólidos), diversas vezes, fato esse que sempre me levou a desistir
de prosseguir com aquelas linhas de sangue onde o fato ocorria,
já que eu perdia a confiança na linha, pois, estas ficam extremamente
instáveis - do ponto de vista de manutenção do arranjo de cores.
E é aí que reside o perigo de quem trabalha suas linhagens querendo
evitar a presença desse traço.
Repare que nunca li isso que escrevi em nenhum lugar.
Isso é fruto de minha observação dos fatos do que via ocorrer nas
ninhadas envolvendo o traço mármore, tanto minhas, quanto de criadores
sérios (como o Paulo Roberto de Freitas e o Wilson Vianna).
Essa afirmativa de que filhos de um casal de mármores, mesmo que
aparentemente não apresentem a marmorização, são, realmente mármores,
é minha - e sobre ela me responsabilizo -, pois considero o traço,
não somente pela sua manifestação no fenótipo e, sim, do ponto de
vista genético.
A maioria de quem se atreve - como eu - a escrever sobre a genética
do Betta , passa batido por esse tema ligando-o mais
ao processo de seu surgimento (ou de sua ocorrência) nos casos de
extrema melanização e/ou, ainda, falando de um "gene saltador" que
atuaria modificando a programação inicial existente no DNA do Betta
em determinada época.
Essa suposição deste "gene saltador" atuando no DNA do Betta
foi aventada por Gene Lucas quando comentou a origem do betta laranja
(dê uma olhada no texto completo do artigo - a
origem do betta laranja, disponível nesta seção),
baseado no trabalho da Dra. Bárbara McClintock que ganhou o prêmio
Nobel pela descoberta da transposição em seus estudos das variações
dos padrões do cerne de milho indiano.
Porém, esse "gene saltador" não teve a sua presença confirmada
nos Bettas! É somente uma ilação, uma hipótese do
Gene Lucas, que acho ter uma boa chance de estar certa. Mas, é só
uma boa hipótese.
Ninguém sabe qual o mecanismo que comanda a sua atuação, isso é
importante deixar claro.
Portanto, pode ser, também, que, no caso dos Bettas,
o processo de marmorização seja causado por um mecanismo similar
- ou até mesmo, o mesmo processo que ocorre no DNA do milho, e que
foi descoberto pela Dra. McClintock.
Assim, voltando à pergunta "cruzamento entre mármores só dão mármores?"
, digo que, sim; de um casal de Bettas mármores só
nascerão mármores (mesmo que o Betta não apresente
no fenótipo essa manifestação).
Dessa forma, pelo que expus até agora, pode-se imaginar o perigo
que se corre ao abrir as nossas linhagens de bettas sólidos – livres
do traço mármore – com “bettas sólidos” de outros criadores, pois
não sabe se esse criador tem esse traço embutido em suas linhas
de sangue, e não sabe, ou mesmo, sabendo dessa ocorrência em suas
linhas, convive com ela, achando que, somente cruzando os Bettas
que não apresentam a marmorização no fenótipo, estará livre do traço
para prosseguir com segurança.
Isso é um equívoco muito comum a meu ver, e que trará certamente,
mais adiante, sérias decepções.
Antes de encerrar, e para fechar com chave de ouro esse tema dos
mármores, me foi contado por um grande amigo e criador, que o processo
de marmorização pode ocorrer, também, ao inverso: isto é; o Betta
que estava todo marmorizado, de repente, volta a ter as cores de
volta - mas, não necessariamente as mesmas -, como se nunca
tivesse se marmorizado!
Particularmente, nunca presenciei tal modificação reversa - me
parece que já ocorreu com ele, ou ele observou em outro criador
(não sei precisar o fato) -, mas ela é perfeitamente justificável
e possível de ocorrência, haja vista que - se a programação inicial
do DNA ainda está lá, gravada -, é só uma questão de tempo ela poder
voltar ao seu estado inicial, caso este processo de reversão ao
estado inicial estiver, também, programado nos genes desse DNA.
Vitor Calil Chevitarese
vitorchevitarese@gmail.com
Aquarista hobbysta desde 1963, apaixonado pelo Betta
e sua genética, com ênfase na disseminação da idéia de preservar, manter e aprimorar
as linhagens existentes. Consultor do CEA - Centro de Estudos para Aquariofilia,
para assuntos ligados aos Bettas splendens e membro da AQUORIO.
Publicação autorizada: 21/07/2010
Última revisão: 03/08/2010
Última
Atualização: 03.08.10 17:20
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