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Um estudo analítico sobre as máscaras nos Bettas

Atualmente, pouco se sabe ao certo sobre o comportamento dos genes que controlam a presença (ou não) das máscaras nos Bettas.

Máscara (ou mask) é como ficou conhecida entre os criadores a característica de os Bettas apresentarem alguma iridescência na cabeça, opérculos, cara e boca.

O tipo selvagem apresenta a cabeça, opérculos, cara e boca, totalmente negras - nos casos dos Bettas escuros - ou totalmente rosada avermelhada, no caso dos Bettas possuidores do traço camboja.

Do ponto de vista de o Betta apresentar (ou não) esse traço, podemos classifica-los em:

  1. Totalmente sem máscaras (no mask) - o tipo comum - acompanhando os Bettas selvagens;

  2. Aqueles com máscaras com falhas devido à falta de iridescência em alguns pontos da cabeça, opérculos, cara e boca - são chamados de máscaras parciais ou com máscaras heterozigóticas; e

  3. Aqueles com a máscara total com essas áreas totalmente cobertas pela iridescência do restante do corpo; são os chamados full masks ou máscaras homozigóticas.

Quando comecei a estudar esse traço, achei extremamente confuso o material disponível - que é irrisório, sem muitas informações teóricas - e, sem desmerecer o trabalho que li, diria até, meio difícil de se chegar a qualquer conclusão prática que me permitisse fazer predições dessa característica nas ninhadas, através dos quadros de Punnett.

Assim, decidi apresentar um modelo que pudesse facilitar o entendimento do que acontece nas ninhadas envolvendo cruzamentos entre Bettas sem máscaras (no mask) e Bettas com máscaras (sejam elas parciais - heterozigóticos - ou full masks - homozigóticos).

Para isso, observei que:

  1. Oos Bettas sem máscara (no mask ou comuns) ao se acasalarem com os Bettas com algum tipo de máscara (sejam elas máscaras parciais ou full masks), produziam ninhadas onde a esmagadora maioria - ou quase toda a ninhada - se apresentava sem qualquer máscara.

    Inicialmente, isso mostrava que o gene (ou conjunto de genes) que atuava na ausência desse traço genético seria dominante com relação aos que determinariam a presença de máscara no Betta.

    Tal hipótese era reforçada pela inexistência de tal característica nos Bettas selvagens, conforme já comentamos anteriormente, embora, isso por si só, não fosse uma condição suficiente para determinar a sua dominância sobre a presença do traço.

  2. Quando um Betta possui máscara parcial e cruza com um outro, também, com máscara parcial, vemos que os indivíduos tendem a aumentar a cobertura das áreas da cabeça, opérculos, cara e boca, podendo evoluir para full masks ou quase full masks, ao longo dos acasalamentos subseqüentes.

    Devido à essa última observação, suspeitei que os traços (gene ou conjunto de genes) que determinariam se o Betta seria de um tipo de máscara ou de outro, poderiam ser co-dominantes entre si, isto é, eles interagiriam uns com os outros, sem ser através do processo de dominância e recessividade (que é quando um aparece, o outro não se manifesta), como é o caso deles com relação ao que determina a ausência total de máscara (no mask).

    Ou seja, quando os dois tipos de alelos que caracterizam os traços das máscaras (máscara parcial - que chamei de me - e o full mask - que chamei de mo), aparecem juntos formando par no alelo, o Betta manifestará uma máscara intermediária entre a parcial e a total (full mask), permitindo que, com o tempo e através das futuras gerações, os descendentes possam evoluir para Bettas full mask.

    Em tempo:

    A sigla me foi criada por causa da expressão máscara heterozigótica e a sigla mo foi criada por causa da expressão máscara homozigótica.

Assim, montei a base de premissas do modelo para o estudo das máscaras:

  1. Betta sem máscara - no mask (que poderá possuir um dos três conjuntos de alelos):

    Mk Mk - é o Betta no mask que não possui a capacidade de transmitir a característica da máscara;

    Mk mo - é o Betta no mask que possui a capacidade de transmitir a característica full mask; ou

    Mk me - é o Betta no mask que possui a capacidade de transmitir a máscara parcial

    Obs.: Mk é o alelo dominante sobre os alelos me e mo, e que, quando presente no par de alelos, indica a presença do traço normal do Betta (ausência máscara - no mask).

  2. Betta full mask - é o Betta que possui o par de alelos recessivos mo mo; e

  3. Betta com máscara parcial - é o Betta que possui um dos pares de alelos recessivos:

    • me me - é o Betta que não possui a capacidade de transmitir a característica full mask; ou

    • mo me - é o Betta que possui a capacidade de transmitir a característica full mask

Um Betta com o par de alelos mo me sofreria o processo de co-dominância, produzindo um tipo intermediário entre o tipo full mask e o com máscara parcial, porém, mais fechado que um "legítimo" máscara parcial (me me), já que, se assim não fosse, quando acontecesse a ocorrência desse par de alelos (mo me), ambos recessivos (e se não houvesse a co-dominância entre eles), se manifestaria o traço normal, ou seja, o Betta no mask, o que contrariaria os resultados obtidos na prática entre os criadores que mexem com esse traço em suas linhagens.

Agora, definida essa base de premissas, podemos ver como elas poderão ajudar a prever o que acontecerá nas diversas possibilidades de cruzamentos envolvendo todos os tipos de situações, no que tange à presença ou não de Bettas com máscaras (de ambos os tipos):

1 - Cruzamento de dois Bettas no mask:

Mk
Mk
Mk
mo
Mk
me
Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk mo
Mk Mk
Mk me
Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk mo
Mk Mk
Mk me
Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk mo
Mk Mk
Mk me
mo
Mk mo
Mk mo
Mk mo
mo mo
Mk mo
mo me
Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk mo
Mk Mk
Mk me
me
Mk me
Mk me
Mk me
mo me
Mk me
me me

Vamos entender esse quadro de Punnett acima:

Ele é o conjunto de nove possíveis acasalamentos distintos, a saber:

Mk
Mk
Mk
Mk Mk
Mk Mk
Mk
Mk Mk
Mk Mk

Mk
mo
Mk
Mk Mk
Mk mo
Mk
Mk Mk
Mk mo

Mk
me
Mk
Mk Mk
Mk me
Mk
Mk Mk
Mk me

E assim, sucessivamente.

Como resultado, temos três casos de máscaras parciais (8%), um caso de máscara total (3%) e a restante e esmagadora maioria de Bettas no mask (89%).

Desses Bettas sem máscaras, há aqueles portadores de quaisquer dos tipos de máscaras (parciais e full masks), assim distribuídos:

  • Mk me - Betta no mask portador de máscara parcial ou heterozigótica (22%); e

  • Mk mo - Betta no mask portador de full mask ou máscara homozigótica (22%)

2 - Cruzamento de um Betta no mask, com um Betta com máscara parcial:

me
me
mo
me
Mk
Mk me
Mk me
Mk mo
Mk me
Mk
Mk me
Mk me
Mk mo
Mk me
Mk
MK me
MK me
Mk mo
Mk me
me
me me
me me
mo me
me me
Mk
Mk me
Mk me
Mk mo
Mk me
mo
mo me
mo me
mo mo
mo me

Temos cinco casos de máscaras parciais (21%), um caso de máscara total (4%) e a restante e esmagadora maioria de Bettas no mask (75%).

Dos Bettas com máscaras parciais, há cinco casos (21%) de máscaras intermediárias - portadores do traço full mask.

Dos Bettas no mask, há aqueles portadores de quaisquer dos tipos de máscaras (parciais e full masks), assim distribuídos:

  • Mk me - 29%

  • Mk mo - 17%

3 - Cruzamento de dois Bettas com máscaras parciais:

mo
me
me
me
mo
mo mo
mo me
mo me
mo me
me
mo me
me me
me me
me me
me
mo me
me me
me me
me me
me
mo me
me me
me me
me me

Temos um caso de full mask (6%) e a restante e esmagadora maioria de Bettas com máscaras parciais (94%), dos quais, há seis casos (38%) de máscaras parciais mais fechadas (portadores do traço full mask) - e nove casos (56%) de Bettas com máscaras parciais não portadores de full mask.

4 - Cruzamento de um Betta com máscara parcial com um Betta full mask:

mo
mo
mo
mo mo
mo mo
me
mo me
mo me
me
mo me
mo me
me
mo me
mo me

full mask (25%) máscara parcial (75%)

5 - Cruzamento de dois Bettas full mask:

Fica claro que somente se obterá Bettas full mask (mo mo x mo mo)

Importante se ter em mente que :

  1. A suposição de co-dominância entre os genes (ou conjunto de genes) mo e me - e ambos recessivos para o traço no mask (Mk), na verdade, só têm sentido para diferenciar no quadro de Punnett aquele Betta que tem uma máscara parcial mais fechada (mo me), daquele que não tem (me me), pois, poderá haver Bettas com máscaras parciais que não consigam produzir Bettas com máscaras parciais mais fechadas - daí a suposição dos me me -, enquanto que outros poderão transmitir algo que permita se obter, mais à frente, melhores máscaras - os mo me -, até, quem sabe, produzindo full masks.

    Então, o que diferencia uma máscara parcial extremamente fechada (mo me) - que evoluiu até full mask -, de um "legítimo" full mask (mo mo)?

    Em primeiro lugar, não cogito nesse trabalho a hipótese das existências de um "legítimo" full mask (mo mo) e um "ilegítimo" full mask (mo me).

    Ambos são fenotipicamente falando - e acredito que, também, geneticamente falando - a mesma coisa!

    Tudo indica que os full masks sejam uma evolução seletiva dos Bettas com máscaras parciais!

    Somente lancei mão desse tratamento para indicar no quadro de Punnett os "graus" de fechamento de máscara nos pais, de tal modo, a se poder visualizar as porcentagens nos índices de acertos (ou não, infelizmente) nessa avaliação, que é muito subjetiva.

    Vamos a um exemplo:

    Tenho um Betta que possui, na minha avaliação, uma cabeça quase que completamente fechada com iridescência.

    Então, julguei ser um full mask e, por esse critério, atribuí a ele (ou ela) a condição mo mo.

    Porém, um outro criador, olhando esse mesmo Betta, achou que essa máscara, pelo critério pessoal dele (mais rigoroso), era, ainda, parcial.

    Devido a isso, ele atribuirá a esse mesmo Betta a condição mo me - ou, no pior dos casos, me me (se não for tão boa).

    Quem está certo do ponto de vista genético? Em princípio, ninguém poderá afirmar nada.

    Somente o tempo poderá dizer quem avaliou melhor esse Betta, através dos resultados obtidos nas ninhadas subseqüentes.

    Como vemos, em alguns aspectos, a coisa continua muito subjetiva, da mesma forma quando analisamos outras características dos Bettas.

    Por exemplo, a iridescência de determinado betta: uns acharão que é verde azulado, enquanto outros dirão que é um azul celeste escuro.

    Outro exemplo: o Betta é um PK avantajado, meio fora de padrão (na relação corpo nadadeiras - um tipo intermediário, com a caudal um pouco mais alta) ou é um HM com uma relação de corpo nadadeira meio fora da média - um corpo grande para nadadeiras não tão desenvolvidas?

    A própria análise de o Betta ser HM ou OHM, ser um bom HM ou não etc., etc.

    Somente teremos a certeza se um Betta poderá ser considerado um full mask se e somente se, não houver nenhuma falha de iridescência na região compreendida entre as nadadeiras peitorais e a boca (inclusive). Fora essa condição, sempre haverá espaço para especulação.

    Como sempre, em qualquer traço que estejamos analisando nos Bettas, haverá sempre os bons (e raros) full masks, haverá, também, aqueles Bettas com excelentes máscaras parciais e ainda, aqueles outros exibindo apenas alguma iridescência na cabeça e opérculos.

  2. Esse trabalho é uma hipótese, por mim criada, para explicar e facilitar a análise de qualquer cruzamento envolvendo Bettas com ou sem máscara, lançando-se mão dos quadros de Punnett.

E, como toda hipótese, deverá ser testada para se constatar se ela está cobrindo, de forma coerente, os resultados obtidos na prática.




Vitor Calil Chevitarese
vitorchevitarese@gmail.com
Aquarista hobbysta desde 1963, apaixonado pelo Betta e sua genética, com ênfase na disseminação da idéia de preservar, manter e aprimorar as linhagens existentes. Consultor do CEA - Centro de Estudos para Aquariofilia, para assuntos ligados aos Bettas splendens e membro da AQUORIO.



Publicação autorizada: 04/09/2010


Última Atualização: 06.09.10 14:41

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